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Desconectada…

… mas assim que eu realizar a proeza de navegar em uma internet discada na casa do meu pai, estarei de volta!

Pão de queijo com requeijão, me aguarde!

Protagonista

Uma das perguntas mais frequentes que recebo é: E aí, você vai querer parto normal ou cesariana? Às vezes é uma afirmação seguida de um PELOAMORDEDEUSCONFIRMAOQUEEUDISSE: Você VAI fazer cesariana, não vai? É ÓBVIO que essa pergunta só vem de brasileiras, porque qualquer outro povo de qualquer outro lugar do mundo foge da cesariana como o vampiro foge do alho e da cruz. Quando respondo: Parto normal, é lógico!, a maioria faz cara de terror ou já começa a desfiar o rosário porque a prima da tia da empregada da vizinha ficou HORAS sofrendo em trabalho de parto! Aí eu pergunto: Quantas horas? e a resposta vem: Nossa, DUAS HORAS! É nesse momento que eu caio no chão e começo a rolar… DE RIR!

Conheço poucas que passaram por todas as fases do parto em duas horas! Só mesmo tendo uma valvulinha hidráulica prá abrir o colo do útero e um reservatório interno de vaselina prá cuspir o rebento na hora do puuuuuuuuuuuuuxa! Quero dizer, empuuuuuuuuuuuuuurra! Ou seja lá que raios se faz na hora!

Sempre fui contra a cesariana indiscriminada. Essa coisa de marcar o dia prá nascer, se vai ser de manhã, se vai ser à tarde, no dia de Cosme e Damião, sempre achei um absurdo. Além de desafiar a natureza - afinal de contas, o corpo e o bebê SABEM quando chegou a hora - a cesariana indiscriminada corrobora com médicos acomodados que descobriram na Obstetrícia o sonho de não acordar de madrugada, perder os finais de semana e as suas consultas pré-agendadas. Alguém um dia disse que parto normal dói. Aí ferrou. Como se o parto fosse a única dor que existisse na face da Terra. O medo se disseminou de uma tal forma de que a dor do parto é associada com sofrimento. E dor e sofrimento são coisas tão distintas…

Que fique bem claro: a cesariana é um baita avanço na Medicina, e casos críticos e que envolvem riscos não têm outra alternativa. MAS É UMA CIRURGIA, COMO QUALQUER OUTRA. Envolve riscos e cuidados pré e pós-operatório. E a cesariana indiscriminada gera um problema social e de saúde pública. Alguém já pensou que uma cesariana indiscriminada está ocupando uma sala de cirurgia que poderia ser usada para salvar a vida de alguém que realmente precisa de uma cirurgia, seja porque está doente, foi atropelado ou levou um tiro no meio de um assalto? Que os gastos com material cirúrgico, mão-de-obra e diária de quartos são astronômicos? Que aquele quarto que uma parturiente está usando por três dias poderia ser usado por alguém que precisa de cuidados? E que a incidência de mortalidade com bebês é extremamente alta em uma cesariana, porque muitas vezes o bebê nasce antes do tempo, enquanto no parto normal a mortalidade é quase inexistente?

Fiquei feliz em ler um dia desses que a coisa no Brasil começou a mudar. São milhões de reais indo ralo abaixo com cesarianas desnecessárias e UTIs neo-natais. Milhões de reais que poderiam ser gastos na Saúde Pública, colocando mais leitos à disposição da população. A mulher que opta pelo parto normal terá direito a quarto específico, com leito, banheiro e ambiente preparado para o pré e pós-parto. Agora é lei, e parto normal não vai mais para o Centro Cirúrgico! Todas as maternidades do Brasil já estão fazendo isso, e acredito que muita coisa começa a mudar a partir de agora. A mudança vai ser a passo de tartaruga, e que os nossos obstetras brasileiros consigam ver um pouco além de seus umbigos e narizes.

E eu, tenho medo da dor do parto? Não, honestamente não. Sei que nós mulheres fomos feitas prá isso, e os benefícios para os bebês são inúmeros e conhecidos. Vai ser bom prá mim e pro Tiquinho de Gente que chegará. E acho também que o parto fecha o ciclo da gestação, e abre o ciclo da nova vida. Todos nós somos protagonistas da própria vida. Ser protagonista é ser o ator principal, ser aquele que tem as rédeas e faz acontecer. E agonista vem de angústia, do latim angustus, que significa apertado, estreito, difícil. Nascer é passar pelo angustus - literalmente o canal vaginal - e assim registrar a primeira grande protagonização da vida: ser alguém.

Voltando às dores: existem dores na vida da gente que não passam nunca. Dores que doem pro resto da vida. Quem carrega essa dor sabe do que eu estou falando. A dor do parto acaba, e é uma dor que traz vida e alegria. Essa eu posso protagonizar. As outras, não. E como doem…

Lucidez

Viver longe da nossa casa traz uma nova perspectiva das coisas que achávamos absolutas na vida. Já comentei - e o Rê também - por várias vezes tudo o que se aprende convivendo com uma nova cultura, sejam pingas ou tombos. O pulo do gato é quando chega o momento de encarar a realidade nua e crua e colocar no papel o retrato maior da lucidez:

Eu, vivendo como expatriada tão longe da minha terra e da minha cultura, aprendi que:

  1. O Brasil não é o melhor país do mundo como eu pensava que fosse
  2. O Brasileiro não é tão aberto e flexível quanto eu pensava que fosse
  3. Eu mesmo não sou quem eu pensava que fosse

Ler e reler isso todos os dias já é o primeiro passo para enfrentar o que me espera quando formos repatriados daqui a dois anos. A terapia começa já.

Big Brother Hormonal

Querem saber o que a Gonadotrofina Coriônica Humana pode fazer em uma mulher? Clique aqui e acompanhe (quase que) diariamente a saga de uma gestante na Coréia!

Cartas Coreanas - O DNA

Sem sombra de dúvida, posso dizer que o meu passatempo predileto aqui na Coréia é tentar desvendar essa esfinge que é o povo coreano. Quando as emoções podem ser colocadas à parte (óbvio que isso somente acontece depois de muita meditação e ioga), fica mais fácil buscar os motivos de certos comportamentos, um tanto quanto únicos em relação a outras culturas.

Mas há certos comportamentos que estão literalmente gravados no código genético do povo coreano. Coisas e situações vividas há centenas de anos, que não existem mais, mas que ganharam espaço dentro de genes bem especiais.

A fome

Nos posts Retrato de Um Povo (clique aqui para reler o último dos três posts novamente) eu falei sobre o cardápio coreano. E fiz pequena menção sobre alguns motivos pelos quais os coreanos comem o que comem. Entretanto, as privações de comida do passado não somente ditaram o que se põe no prato hoje, mas também comportamentos e atitudes esperadas quando o quesito é comer.

Quando ainda morava no Brasil, meu horário predileto para ir ao supermercado fazer compras era próximo ao horário do almoço. Quem tinha que fazer compras para o almoço já estava passando pelo caixa, e a grande maioria estava se preparando para sentar-se à mesa. Aqui na Coréia, é exatamente o contrário. O horário do almoço é o mais concorrido, o mais muvucado, o mais estressante. Famílias inteiras vão ao supermercado única e exclusivamente para comer… de graça. Explico: os supermercados na Coréia tem um apelo de marketing de produtos baseado em amostras, mas não são somente lançamentos de novos produtos. A cada esquina de corredor tem um promotor de vendas, ou um funcionário do próprio supermercado, distribuindo amostras de comida pronta congelada, carne fresca grelhada, peixe, produtos da rotisserie, legumes, frutas frescas, vinhos, leites, sucos e iogurtes. Pois os coreanos literalmente avançam nas amostras, TODAS ELAS, independente do que seja. É de graça, é comida? Corre, corre! Pega o que você pode carregar antes que alguém chegue! Eu já deveria estar acostumada com isso, mas toda vez que presencio isso eu me pego pensando no tanto de fome que esse povo passou no passado, e o mecanismo de defesa que a raça criou para evitar a morte. É um alarme que dispara cada vez que o coreano vê comida ao alcance das mãos. Uma coisa meio Pavlov, mais forte do que qualquer nova realidade econômica do povo.

E não importa a classe social. Pobre ou rico, todos agem da mesma forma. Não tem uma vez que não estou em um VIP lounge de empresa aérea que não vejo coreanos descaradamente abrindo as geladeiras e enchendo as bagagens de mão. Latas de cerveja, garrafas d’água, nem Cup Noodles se salvam. Novamente, o alarme que dispara: é de graça, e está ao meu alcance…

Existe ainda algo que eu não presenciei, mas já ouvi relatos de outros estrangeiros que vivenciaram o fato. O oeste da Coréia é banhado pelo Mar Amarelo, o qual tem profundidade muito rasa perto da costa. Isso faz com que o mar “desapareça” durante a baixa das marés, e ilhotas são acessíveis com uma simples caminhada onde antes era mar. Esse fenômeno é bastante interessante e atrai muita gente, sejam coreanos ou estrangeiros. O inusitado é que NINGUÉM faz nenhuma travessia às ilhotas sem uma sacola plástica na mão, porque é preciso pegar todos os crustáceos e pequenos peixes que ficam presos nas pequenas poças da maré baixa. E estrangeiro que não enche a sacola toma bronca, das feias.  O alarme, o alarme…

Os estrangeiros

A Coréia, no passado, foi invadida um guizilhão de vezes. A península era a ponte perfeita para Chineses, Japoneses e Mongóis. A Coréia não era necessariamente o alvo todas as vezes, mas um exército chinês a caminho do Japão pilhava todo o território, roubava comida e barbarizavam as pessoas. Muitas vezes eles foram o alvo, e dominados por anos e anos. Tanta dor e sofrimento também criaram mais um alarme genético…

Estrangeiros não são bem vistos por aqui. Independente do motivo pelo qual se vive na Coréia, estrangeiro será sempre invasor. Sempre aquele que veio roubar algo do povo coreano. Sempre aquele em que não se pode confiar. Estrangeiro rouba emprego, rouba mulher. Infelizmente, os estrangeiros são vítimas de muito preconceito, e não é raro ver demonstrações de agressividade. Já contei aqui quando fui agredida na rua. E há poucos meses um americano foi atacado com uma garrafa quebrada: ele saiu da estória com uma sutura do braço, o qual ele usou para se proteger de algo mais sério. O ataque foi prá valer, mesmo.

Quando eu e o Renato estamos na rua, sempre cruzamos com algum bebê ou criança coreana. Por mais micagem que façamos, não arrancamos nem um esboço de sorriso. É muito comum, também, crianças que saem correndo em busca das pernas maternas e paternas gritando miguk saram, miguk saram, que quer dizer americano, em verdadeiro pânico (para eles, todos os estrangeiros são americanos. Clique aqui para ler o que o Renato escreveu a respeito).

 

Bem, acho que todos os povos tem algo gravado lá no fundo do seu DNA. A estória de nós, brasileiros, ainda é muito curta. Mas já dá prá escrever um tratado sobre tudo o que já temos gravados nos nossos genes. Muita coisa boa, muita coisa triste, muita porcaria também. Entretanto, essas gravações profundas podem ser modificadas, através de novos comportamentos. Eu tenho visto muito coreano agindo de forma bastante diferente da maioria, o que me dá muita alegria. Já vi muito pai e mãe coreanos incentivando seus pimpolhos a nos darem atenção, seja com um oi ou um aceno de mão. São pessoas que começaram a abrir os olhos para o mundo, que já entenderam que a Coréia não é mais uma nação que passa fome, uma nação enfraquecida por ataques, uma nação pisoteada e massacrada. Eles enxergam a Coréia a dois passos de fazer parte do G8, enxergam uma nação que cresce, uma nação que precisa do mundo exterior para poder desenvolver ainda mais. São comportamentos assim que farão com que os alarmes do DNA se modifiquem e evoluam.

Qualquer dia desses vou em busca dos alarmes brasileiros…

Buraco Negro

Eu prometi que voltava logo, mas meu logo não foi tão logo assim… Talvez porque a gravidez tenha trazido uma outra conotação para o tempo. Não, nada disso. Estou terminando de arrumar a casa (casa = eu mesma), depois de dois grandes e diferentes rumos que dei para a minha vida.

O primeiro deles, vocês já sabem. Estou grávidíssima, 16 semaninhas! A vida parece que voltou ao normal, depois de 10 semanas de agonia. Por 10 semanas, abracei a porcelana do banheiro todos os dias. Fora a sensação de viver dentro de uma máquina de lavar roupas que só funciona no ciclo da centrifugação. E fora TODOS os outros sintomas que todos os livros relacionavam como normais no primeiro trimestre de gestação. Não conseguia cozinhar, não conseguia comer, mal conseguia abrir a geladeira. Meu corpo passou fome e sede, mesmo sem sentir. Ainda bem que a natureza é sábia, e o Pequeno Ser se alimentou do meu corpo por todo o trimestre. Nunca a relação parasita-hospedeiro ficou tão clara para mim!

O segundo deles: decidi parar de trabalhar por aqui. Tirei a licença não remunerada a qual tinha direito, e descabelei. Muita gente surtou com a minha decisão, e ficou sem entender nada. Ok, nada de pânico. Não foi uma decisão descabeçada, tomada em meio a um turbilhão emocional causado por hormônios e 10 semanas ininterruptas de mal-estar. Após trabalhar continuamente por 21 anos, essa é uma decisão que foi pensada, repensada, macerada, curtida e recurtida. E a decisão de parar de trabalhar veio com a decisão de engravidar. Os motivos são assuntos para mais de metro para uma Carta Coreana, mas vou tentar resumi-los:

  • o meu trabalho é de natureza altamente estressante. Isso não é bom, mas é contornável. O que não é contornável é ter um fuso horário de 12 horas com o Ocidente, o que força a trabalhar muito além das horas normais; e muito menos contornável é trabalhar em um ambiente insalubre, como o meu antigo escritório.
  • em um ambiente de trabalho predominantemente machista, ninguém quer saber se eu preciso tirar um cochilo de 15 minutos porque estou extremamente cansada: se está no escritório, é prá produzir. E ponto. Afinal, ainda tem muito homem casado e pai de família que acha que sintoma de gravidez é frescura de mulher… Imagina o que dizer dos coreanos no escritório…
  • a fábrica não possui ambulatório, ou um Time de Emergência para Primeiros Socorros. Se algo acontecesse comigo por lá, não dá prá prever o desfecho. Ah, e ninguém fala nada além do coreano.
  • a fábrica fica a 45 Km de Seul, onde moramos. O que significa uma média de 2,5 horas por dia no trânsito, ida e volta. Trânsito insano, por sinal. Também completamente impraticável, no caso de uma emergência.
  • aqui na Coréia não existe Creche, Escolinha, Berçário, ou qualquer outro nome que temos no Brasil. Sim, afinal de contas, para que eles precisam disso? A mulher coreana, com raras exceções, pára de trabalhar quando casa ou quando tem o primeiro filho. E as que continuam trabalhando têm alguém da família (mãe ou sogra) para cuidar da criança. Escolinha aqui, somente após os 3 anos de idade.

Muitos poderiam pensar: ah, mas você poderia arranjar uma babá. Sim, verdade. Mas uma babá coreana? Ou filipina? Alguém pode conceber o fato de ter uma pessoa de uma cultura (e língua) completamente diferente CRIANDO o seu filho(a)? Sair de casa às 7h da manhã, chegar às 8h da noite, e ver seu filho(a) somente nos finais de semana? Não, não é prá mim…

Me sinto privilegiada. Poder ter um tempo para mim durante a gravidez, sem stress, sem correria, cuidando do corpo e da mente é uma verdadeira benção. E poder passar o primeiro ano de vida do bebê cuidando dele é uma benção ainda maior. Isso no Brasil seria impossível. Eu trabalharia até a bolsa de água estourar, e estaria de volta após a licença-maternidade, aos prantos. Como a grande maioria das minhas amigas por lá. E a cena não é bonita de se ver.

Mas voltando ao ponto inicial: essas duas grandes mudanças da minha vida exigiram - e ainda exigem - uma fase de adaptação que não é muito fácil. Aliás, é muito difícil. Mas é um difícil maravilhoso! Viva a adrenalina!

Ok, minhas sinapses foram bem afetadas, mas ainda existe um Ser Pensante nesse Hospedeiro que vos escreve!

Eu voltei!

Ausência

Sim, o Iacobus está um pouco abandonado… Para saber o por quê, dê uma passada no nosso blog coreano:

http://nosnacoreia.zip.net/arch2008-06-01_2008-06-30.html#2008_06-15_09_43_12-10659718-0

E eu prometo que volto logo!

Cartas Coreanas - Trinca

Passamos a primeira semana com três preocupações básicas na cabeça: a primeira, conseguir ajustar um pouquinho o fuso horário; a segunda, iniciar o reconhecimento de terreno, coisa que aprendemos que nunca tem fim; e terceiro, preparar-se psicologicamente (ou sei lá o quê) para o primeiro dia no trabalho. Destas três, a última era a que realmente tirava o sono. Eram muitas estórias, experiências isoladas de pessoas com que conversamos… Um enigma a ser desvendado.

Programamos nossa vinda para cá de modo que chegássemos uma semana antes do dia marcado para o Renato iniciar na empresa. A minha data ainda não estava firme, então eu teria mais alguns dias para me entender com a casa, o microondas, as prateleiras do supermercado e a minha pele, que se enchia de feridas por causa do ar seco. Bendita umidade paulista.

Uma certa manhã daquela primeira semana de maio, eu resolvi sair para uma caminhada. O destino eram as ruas do bairro, para descobrir o que havia por perto. O dia estava lindo (coisa rara por essas bandas), com um céu azul e o sol brilhando. O ar ainda estava frio, o que aumentava a sensação de conforto. E eu, toda faceira, feliz da vida na minha melhor versão de mulher exploradora.

Saí do condomínio, desci a ladeira daqui de casa (o nosso condomínio se chama Hillside. Sim, moramos em um morro!), atravessei a avenida principal de Hannam e caminhei em direção a Itaewon, o bairro vizinho ao nosso. Caminhava e absorvia tudo o que via e ouvia. O que eu via, não sei dizer. Durante muito tempo tudo o que eu via era uma grande poluição visual, aquele monte de pauzinhos todos juntos formando palavras em coreano. O que eu ouvia, eu sei dizer o que era. Ruído, só um monte de ruído. Bastava meia hora naquele ambiente para o cérebro querer dormir. Com o cérebro sobrecarregado, três quartos da minha exploração se transformou em surrealismo, porque eu já não tinha certeza do que via e percebia. Sim, a percepção ficou completamente alterada. Que sensação… surreal…

Mas surreal mesmo era o que estava por vir.

No caminho de volta ao apartamento, resolvi caminhar pela avenida principal de Hannam. É uma avenida sem muito movimento de pedestres, pois não concentra lojas, mercadinhos, farmácias. Era exatamente o que eu queria, caminhar sem ver nada ou ouvir ninguém. Faltando uns dez minutos para chegar em casa, percebo ao longe o primeiro transeunte da avenida, um homem na faixa dos 40 anos. Ou algo assim. Agradeci o fato da calçada ser larga o suficiente e sem caixotes ou vendedores ambulantes para que eu não tivesse que desviar ou pedir licença. Ótimo, eu poderia continuar caminhando sem prestar muita atenção em nada. E assim o fiz.

Eis que, de repente, senti uma dor no braço esquerdo. Bati o braço em um poste? Não, pensei, essa calçada não tem poste. Mas que diabos está acontec… Meu Deus, esse homem acabou de me dar um soco no braço! Olhei prá ele, e ele se desembestou a dizer um monte de blás-blás-blás ininteligíveis, mas a linguagem corporal é universal, e essa eu sei ler muito bem.

Quando eu consegui me recuperar do susto para conseguir reagir, ele já tinha ido embora. Mas ainda olhava prá trás e falava alguma bobagem qualquer. ES-SE-CO-RE-A-NO-ME-BA-TEU! Alguns segundos mais tarde, me dei conta de que ele não batia muito bem os pinos, pela forma com que seus olhos se mexiam.

Sim, concluí que ele era louquinho, um dos muitos desequilibrados que andam pelas ruas de Seul. Mas pensei nas minhas remotas aulas de psicologia, do ID com seus desejos desnudos e o EGO refreando o ID. Quantas coisas que pensamos e queremos dizer, mas nosso ego não deixa. Uma mente desequilibrada quebra a relação do id com o ego, então a pessoa fala e faz o que pensa verdadeiramente, sem freios, sem pudor. Eu, mulher, estrangeira, em um país tradicionalmente machista, culturalmente conservador e bairrista. Seria a reação do louquinho que me deu um soco no braço a vontade reprimida e refreada dos homens coreanos em relação às mulheres estrangeiras?

Essa pergunta já fez aniversário duas vezes, e continua sem resposta. Vamos ver se um dia a resposta vem.

Nesse dia, ganhei a primeira trinca nas minhas “lentes culturais”…

 

No forno

A próxima Carta Coreana já está no forno. Enquanto isso, passe por aqui para saber como foi a nossa viagem à Tailândia!

Bjs!

Um pouco antes das 9 da manhã do dia seguinte da chegada na Coréia, estávamos nós e seis malas no saguão do hotel. Esperávamos o Jay Shin, nosso relocation manager, que iria nos levar até a nossa nova casa. Às 9 em ponto chega o Jay, todo pirilampo, já nos arrastando para dentro da van. Então vai ser assim mesmo, sem anestesia?, pensei. Talvez a gente pudesse ficar uns dois dias no hotel deixando a poeira abaixar, arrumando as coisas no apartamento aos poucos, e depois mudar definitivamente. Não, Selma, ainda não aprendeu que com vocês não ter morno?  Ok, sim, já aprendi…

Chegamos à nossa nova casa. Ao entrar, já incorporamos a nova regra: dentro de casa, sapato não entra. Sapato fica no hall de entrada. Meu nariz já dizia que aquele lugar ia demorar um tempão para ter cheiro de lar, de casa da gente. Cheiro estranho, cheiro asséptico, cheiro de o-que-eu-to-fazendo-aqui. Móveis alugados que ficariam conosco pelo tempo que nossa mudança demorasse a chegar - quase dois meses - complementavam a estranheza da nova casa.

De um lado da sala, um sofá de chenile marrom, um sofá de corino preto, um rack de vidro, uma TV e um Home Theather. Do outro lado, uma mesa pequena com quatro cadeiras. A cozinha, já toda equipada com eletrodomésticos de ponta, continha o kit-recém-expatriado: quatro pratos grandes, quatro pequenos; quatro garfos, quatro facas, quatro colheres; quatro xícaras grandes, quatro copos, quatro panelas. Um liquidificador tipo Magic Bullet, o ferro de passar super-turbinado. Ah, alguns utensílios para cozinhar, facas de corte a la ginzu… Não me lembro, deveriam ser quatro, também…

No master bedroom (eles a-do-ram esse termo para designar o quarto do casal), uma cama tamanho padrão e dois criados-mudos. Eu e o Rê em uma cama padrão… Rá, vai ser um estapeio só!

Enquanto a gente tentava se encontrar no primeiro metro quadrado da casa, o Jay e a Grace (a nossa antiga administradora do condomínio) não paravam de falar. Manual de instrução daqui, porteiro eletrônico dali, para abrir o não-sei-o-que aperta aqui, peloamordeDeus não aperta esse botão, não puxa essa cordinha, a caixa de luz, liga o telefone, testa a internet, mostra como liga a TV e o DVD, AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!

Quinze minutos depois, o furacão vai embora. A porta de fecha e a gente diz: e agora? Bem, considerando que a gente só tem uma alternativa, vamos desmanchar as malas.

Já perto da hora do almoço, a gente resolve sair. Precisávamos de dinheiro, de comida, e de algumas coisas básicas na geladeira. A primeira missão: o dinheiro. Após andar um quilômetro e várias tentativas frustradas em quatro ou cinco caixas-eletrônicos, conseguimos achar um 7-Eleven com um ATM que conseguiu ler o nosso cartão. Do primeiro saque na Coréia a gente nunca esquece…

Dinheiro na mão, passamos para a segunda missão: almoçar. Achamos um restaurante ao lado da universidade, com um display na entrada com todos os pratos do cardápio em resina. O maior esforço que fizemos foi levar a menina até o display e apontar o que queríamos. Opa, até aqui tudo bem! O primeiro siricotico estava oficialmente adiado! Comemos, pagamos, saímos, sem provocar nenhum incidente internacional!

Terceira e última missão do dia: comprar víveres. Acho que o termo é bem apropriado para aquele momento, porque tínhamos ZERO na geladeira e armários. Bem, justiça seja feita: fizemos um belo contrabando de mantimentos do Brasil, mas só enlatados e empacotados. Então, caminhamos ao mercadinho mequetrefe de coisitas importadas que fica ao lado de casa.

Se as coisas na Coréia custam os olhos da cara, nesse mercadinho custam os olhos, os rins e o fígado. Não me lembro muito bem de todos os itens da compra, mas acho que voltamos para casa com uma garrafa de leite, um pacote de pão de forma anêmico de tão branco, um pote de manteiga, um vidro de geléia, uma garrafa de água e um fardo de papel higiênico. Sim, um fardo. 24 rolos de papel higiênico. Um quilômetro de papel higiênico.Que raio de comida que esses coreanos comem, peloamordeDeus???

Voltamos para casa, exaustos. Muita informação junta aliada ao jetlag. Lembranças nubladas, talvez porque o dia estivesse nublado. Acho que nunca vou saber ao certo.

Dormimos às cinco da tarde. Até que aguentamos bem. Fica a pergunta aberta enquanto Morfeu abria os seus braços: e amanhã, como será?

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