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Posts Tagged ‘Cartas Coreanas’

O post de hoje no Korea Beat fala de algo muito pulsante na Coréia do Sul: o preconceito racial.

O professor de Psicologia da Ewha’s Women’s University, Bang Huijeong, conduziu um estudo entrevistando estudantes universitários – 121  coreanos e 53 estrangeiros. O resultado trouxe algo já conhecido na sociedade coreana: o preconceito em relação a raças diferentes da coreana.

A raça branca (ou caucasiana, não sei qual delas é a mais ou menos politicamente correta) é a que sofre menos preconceito. Os grandes massacrados são os negros e os sul-asiáticos (tailandeses, vietnamitas, filipinos, e por aí vai). São vistos como menos honestos e menos confiáveis, e não há desejo de estabelecer nenhum tipo de vínculo com eles.

O Professor Bang se preocupa com o futuro do país, em um momento em que grandes transformações são necessárias para a inserção efetiva da Coréia do Sul no mundo globalizado. Ele diz que

(…) quando comparado a estudantes estrangeiros, os coreanos diretamente mostram atitudes e pensamentos preconceituosos. Para preparar para uma era de multiculturalismo e globalização, essas atitudes e pensamentos devem ser transformados pelo sistema de educação e por contatos frequentes com pessoas destes países. 

O Korea Beat ainda propõe que o estudo deveria ser estendido a duas gerações anteriores a dos estudantes, para determinar o grau de evolução – se algum – das atitudes preconceituosas. Acho justo, e curioso. Afinal de contas, a “plataforma” do preconceito coreano se baseia na homogeneidade racial e na pureza do sangue. Mas o realmente interessante é que os coreanos mantém uma relação de inferioridade em relação à raça branca, e uma relação de superioridade em relação aos negros e sul-asiáticos. Talvez pela aparência ou pelo modelo de sociedade. Isso requer mais neurônios e pesquisa… 

A xenofobia é algo que sempre foi muito presente para nós nestes quase três anos de Coréia. Tive algumas experiências pessoais, que foram chocantes e ao mesmo tempo fascinantes. Duas delas ocorreram no ambiente de trabalho, o qual considero o mais hostil de todos por aqui.

O primeiro episódio foi durante uma grande reunião de toda a área em que eu trabalhava. Uma mega vídeo-conferência englobando todos os países da Ásia e Oceania. Algo como umas 700 pessoas conectadas, ouvindo o nosso Vice-Presidente falando sobre os resultados da empresa naquele trimestre, dividindo sucessos e falhas, premiando os destaques do período. Depois de todo o blá-blá-blá, chegou o momento das perguntas e respostas. Nosso Vice-Presidente estava conduzindo a conferência aqui da Coréia, e estávamos todos em um grande auditório. Eis que ele recebe a primeira pergunta vinda de um coreano, o qual era somente o porta-voz de um grupo que não se identificou:

Quando é que os estrangeiros vão embora daqui?

Eu quase caí da cadeira. Virei para o lado para perguntar se eu tinha perdido alguma coisa, dormido no meio da pergunta, sei lá. Todos os outros estavam também abestalhados, sem acreditar no que tinham ouvido. Nosso Vice-Presidente se saiu muito bem na resposta (que não posso reproduzir, porque o contexto expõe detalhes confidenciais da empresa) e deixaram os coreanos com cara de tacho. Mas foi nesse momento em que meu mundo caiu. Um baita esforço para me adequar à cultura local, respeitando e entendendo as esquisitices, e de repente tudo veio à tona: não importava o quanto de energia era dispendido. Não éramos bem-vindos, e ponto final. A partir daquele momento, relaxei e procurei não esquentar muito a cachola. Nunca deixei de respeitar a cultura local, mas deixei de abafar a minha cultura, os meus costumes, e minha forma de vida. Depois de tanto ouvir “você tem que entender a cultura coreana” em momentos de conflito, eu passei a usar “você tem que entender a cultura brasileira”. E isso vai mais ou menos de encontro com a precupação do Professor Bang.

O segundo episódio ocorreu durante um almoço. Bate-papo aqui e acolá, e o assunto virou para o tópico “falar coreano”. Conosco estava a Ellie, uma coreana muito cabeça que trabalhava conosco de tradutora e intérprete. Eu e a Kristin perguntamos: Ellie, que raios acontece que, quando falamos coreano, ninguém entende? Ela riu. E a gente continuou explicando que por mais perfeito que seja a nossa pronúncia e nossa colocação gramatical, o coreano vai olhar prá gente e dizer que não entendeu. Repetimos, e nada. Lá pela terceira vez, o coreano fala: AAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH! Você quer dizer “isso isso isso isso”? E repete EXATAMENTE  o que dissemos. Eu expliquei prá ela que se algum estrangeiro no Brasil me aborda perguntando onde ele pode comprar BANA, eu vou entender. BANA não existe, mas eu sei que ele quer dizer BANANA. E que na Coréia isso não acontecia nunca. Mesmo com a pronúncia perfeita.

Aí ela disse: Bem, a verdade é que os coreanos não admitem que um estrangeiro fale a sua língua perfeitamente. A atitude de dizer que não entende é para desencorajar. A língua coreana é um dos tesouros da Coréia, e um estrangeiro falando tira a pureza do conceito.

Não esperávamos a resposta, mas ficamos muito gratas com a franqueza da Ellie. Ela sempre foi a nossa fonte de informação fidedigna lá no escritório…

Há outros casos de preconceito que aprendemos pelos blogs locais, revistas e papos com pessoas. As Casas da Luz Vermelha aqui em Seul não aceitam clientes que não sejam coreanos, porque os estrangeiros são considerados sujos e os responsáveis por espalhar doenças venéreas e AIDS. Mas os coreanos vão para os paraísos sexuais no Sul da Ásia, transam sem camisinha, e voltam para os meretrícios locais. Resultado: as DSTs e a AIDS estão se alastrando em progressão geométrica. Outro fato interessante é que os homens coreanos abominam os estrangeiros porque segundo eles “os estrangeiros só estão na Coréia para roubar nossas mulheres”. E por aí vai.

Longe de mim querer fazer qualquer tipo de comparação com o Brasil. Não é o intuito aqui. Eu até prefiro que a coisa seja descarada, mesmo, porque desta forma não existe dúvidas do terreno que a gente pisa. No Brasil, Terra da Diversidade, falar de preconceito é um dos maiores tabus da sociedade. Brinca-se de avestruz, todo mundo enterra a cabeça, e assim caminha a sociedade…

A preocupação do Professor Bang ainda precisa ecoar aqui na Península. Em um país de 80 milhões de habitantes, onde 1 milhão são estrangeiros, é necessário uma mudança drástica e rápida na sociedade. É isso e a expansão das fronteiras coreanas nesse mundo globalizado, ou passar arame farpado e criar um planetinha separado por aqui.

Honestamente, esse último é o que parece casar com o pensamento da coletividade… Mas… tem a Coréia alguma opção?

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Cartas Coreanas – Gravidez

É claro que eu não poderia deixar esse tema passar em branco!!!

O coreano encara a gravidez com muita seriedade, como algo quase divino. Quando os coreanos do escritório ficaram sabendo que eu estava grávida, me senti uma deusa, uma divindade mesmo, tamanha era a adoração pelo meu “estado”. Gente que nunca tinha olhado na minha cara veio falar comigo, com os olhos brilhando, contando suas experiências e, claro, me enchendo de conselhos… esdrúxulos. Nestes momentos eu me transportava para minha infância e adolescência, quando ouvia que tomar leite com manga matava, que não podia lavar os cabelos quando menstruava, ou pisar no chão gelado porque o fluxo “voltava” (independente do que isso possa significar…). As superstições são parte da cultura do povo e verdades absolutas no modo de conduzir a vida.

São muitas as estórias, os conselhos e as proibições e as obrigações que recaem sobre a gravidez, a mulher e o bebê. Algumas com fundamento, outras com uma estória antiga por detrás, outras ainda cuja razão se perdeu no tempo. Algumas, ainda, lembram lendas antigas, mas imagino que em alguns lugares da Coréia do Sul e do Norte essas regras ainda se fazem por valer:

  • Tradicionalmente, meninos eram tesouros e meninas eram sobras. Meninos sempre foram preferidos porque a nova geração masculina seria capaz de trabalhar nos campos e evitar a extinção do nome da família. Se a mulher não era capaz de dar à luz a um menino (nota da blogueira: como se fosse a mulher a responsável pelo sexo da criança…), então uma mãe substituta era escolhida para providenciar o herdeiro. A sogra era a responsável por escolher essa mulher para o filho.
  • Durante o parto, a mulher estava restrita a ver somente coisas bonitas. Eles acreditavam que tudo que a mulher olhasse iria influenciar na aparência da criança, como a forma e característica. Por exemplo, as mães não poderia olhar para flores mortas já que isso traria um mau presságio.
  • A gestante era e ainda é colocada em uma dieta rigorosa, e a sogra é a responsável por colocar a nora em tal dieta. A dieta geralmente exclui alimentos condimentados e apimentados (porque a mulher já é considerada quente na Medicina Chinesa, e isso impactaria na formação do bebê), alimentos feios (porque resultam em um bebê feio, nos quais estão incluidos alimentos com algum machucado ou já com alguma parte em início de decomposição), alimentos em pedaços quebrados (como macarrão ou biscoitos) e pato (porque o bebê nasceria com os pés “de pato”. Óbvio!).
  • Orações são feitas a Avalokiteshvara,  para proteger o bebê no momento em que ele passa pelo canal vaginal e também para protegê-lo contra desastres naturais e propiciar uma vida tranquila.
  • Orações também são feitas à deusa Samshin durante a gravidez para que venha um menino, ou para garantir que a criança que nasça seja saudável. Essa deusa é conhecida como o “espírito da avó”, portanto é necessário que as mães a dirijam orações para proteger a criança durante o parto e nos anos seguintes de sua vida.
  • Chomboks (adivinhos) são chamados durante a gestação para dizer o sexo da criança, a data de uma cesariana ou até mesmo adivinhar o nome do bebê.
  • Durante todo o trabalho de parto e o nascimento, a mulher é comandada pela sogra. O papel da sogra lá é assegurar que tudo está correndo bem com seu(a) novo(a) neto(a) e que as tradições se completarão com sucesso.
  • Da mesma maneira como na Cientologia, as mães coreanas são mantidas no mais absoluto silêncio durante todo o trabalho de parto. Isto vem da crença de que gritar mostra sinais de vergonha e fraqueza, que serão passados para a criança.
  • Depois do nascimento, não é permitido à mãe fazer absolutamente nada por 21 dias. A sogra é responsável por fazer todo e qualquer trabalho.

A lista ainda está pela metade! E continua no próximo post!

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Cartas Coreanas – O DNA

Sem sombra de dúvida, posso dizer que o meu passatempo predileto aqui na Coréia é tentar desvendar essa esfinge que é o povo coreano. Quando as emoções podem ser colocadas à parte (óbvio que isso somente acontece depois de muita meditação e ioga), fica mais fácil buscar os motivos de certos comportamentos, um tanto quanto únicos em relação a outras culturas.

Mas há certos comportamentos que estão literalmente gravados no código genético do povo coreano. Coisas e situações vividas há centenas de anos, que não existem mais, mas que ganharam espaço dentro de genes bem especiais.

A fome

Nos posts Retrato de Um Povo (clique aqui para reler o último dos três posts novamente) eu falei sobre o cardápio coreano. E fiz pequena menção sobre alguns motivos pelos quais os coreanos comem o que comem. Entretanto, as privações de comida do passado não somente ditaram o que se põe no prato hoje, mas também comportamentos e atitudes esperadas quando o quesito é comer.

Quando ainda morava no Brasil, meu horário predileto para ir ao supermercado fazer compras era próximo ao horário do almoço. Quem tinha que fazer compras para o almoço já estava passando pelo caixa, e a grande maioria estava se preparando para sentar-se à mesa. Aqui na Coréia, é exatamente o contrário. O horário do almoço é o mais concorrido, o mais muvucado, o mais estressante. Famílias inteiras vão ao supermercado única e exclusivamente para comer… de graça. Explico: os supermercados na Coréia tem um apelo de marketing de produtos baseado em amostras, mas não são somente lançamentos de novos produtos. A cada esquina de corredor tem um promotor de vendas, ou um funcionário do próprio supermercado, distribuindo amostras de comida pronta congelada, carne fresca grelhada, peixe, produtos da rotisserie, legumes, frutas frescas, vinhos, leites, sucos e iogurtes. Pois os coreanos literalmente avançam nas amostras, TODAS ELAS, independente do que seja. É de graça, é comida? Corre, corre! Pega o que você pode carregar antes que alguém chegue! Eu já deveria estar acostumada com isso, mas toda vez que presencio isso eu me pego pensando no tanto de fome que esse povo passou no passado, e o mecanismo de defesa que a raça criou para evitar a morte. É um alarme que dispara cada vez que o coreano vê comida ao alcance das mãos. Uma coisa meio Pavlov, mais forte do que qualquer nova realidade econômica do povo.

E não importa a classe social. Pobre ou rico, todos agem da mesma forma. Não tem uma vez que não estou em um VIP lounge de empresa aérea que não vejo coreanos descaradamente abrindo as geladeiras e enchendo as bagagens de mão. Latas de cerveja, garrafas d’água, nem Cup Noodles se salvam. Novamente, o alarme que dispara: é de graça, e está ao meu alcance…

Existe ainda algo que eu não presenciei, mas já ouvi relatos de outros estrangeiros que vivenciaram o fato. O oeste da Coréia é banhado pelo Mar Amarelo, o qual tem profundidade muito rasa perto da costa. Isso faz com que o mar “desapareça” durante a baixa das marés, e ilhotas são acessíveis com uma simples caminhada onde antes era mar. Esse fenômeno é bastante interessante e atrai muita gente, sejam coreanos ou estrangeiros. O inusitado é que NINGUÉM faz nenhuma travessia às ilhotas sem uma sacola plástica na mão, porque é preciso pegar todos os crustáceos e pequenos peixes que ficam presos nas pequenas poças da maré baixa. E estrangeiro que não enche a sacola toma bronca, das feias.  O alarme, o alarme…

Os estrangeiros

A Coréia, no passado, foi invadida um guizilhão de vezes. A península era a ponte perfeita para Chineses, Japoneses e Mongóis. A Coréia não era necessariamente o alvo todas as vezes, mas um exército chinês a caminho do Japão pilhava todo o território, roubava comida e barbarizavam as pessoas. Muitas vezes eles foram o alvo, e dominados por anos e anos. Tanta dor e sofrimento também criaram mais um alarme genético…

Estrangeiros não são bem vistos por aqui. Independente do motivo pelo qual se vive na Coréia, estrangeiro será sempre invasor. Sempre aquele que veio roubar algo do povo coreano. Sempre aquele em que não se pode confiar. Estrangeiro rouba emprego, rouba mulher. Infelizmente, os estrangeiros são vítimas de muito preconceito, e não é raro ver demonstrações de agressividade. Já contei aqui quando fui agredida na rua. E há poucos meses um americano foi atacado com uma garrafa quebrada: ele saiu da estória com uma sutura do braço, o qual ele usou para se proteger de algo mais sério. O ataque foi prá valer, mesmo.

Quando eu e o Renato estamos na rua, sempre cruzamos com algum bebê ou criança coreana. Por mais micagem que façamos, não arrancamos nem um esboço de sorriso. É muito comum, também, crianças que saem correndo em busca das pernas maternas e paternas gritando miguk saram, miguk saram, que quer dizer americano, em verdadeiro pânico (para eles, todos os estrangeiros são americanos. Clique aqui para ler o que o Renato escreveu a respeito).

 

Bem, acho que todos os povos tem algo gravado lá no fundo do seu DNA. A estória de nós, brasileiros, ainda é muito curta. Mas já dá prá escrever um tratado sobre tudo o que já temos gravados nos nossos genes. Muita coisa boa, muita coisa triste, muita porcaria também. Entretanto, essas gravações profundas podem ser modificadas, através de novos comportamentos. Eu tenho visto muito coreano agindo de forma bastante diferente da maioria, o que me dá muita alegria. Já vi muito pai e mãe coreanos incentivando seus pimpolhos a nos darem atenção, seja com um oi ou um aceno de mão. São pessoas que começaram a abrir os olhos para o mundo, que já entenderam que a Coréia não é mais uma nação que passa fome, uma nação enfraquecida por ataques, uma nação pisoteada e massacrada. Eles enxergam a Coréia a dois passos de fazer parte do G8, enxergam uma nação que cresce, uma nação que precisa do mundo exterior para poder desenvolver ainda mais. São comportamentos assim que farão com que os alarmes do DNA se modifiquem e evoluam.

Qualquer dia desses vou em busca dos alarmes brasileiros…

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Passamos a primeira semana com três preocupações básicas na cabeça: a primeira, conseguir ajustar um pouquinho o fuso horário; a segunda, iniciar o reconhecimento de terreno, coisa que aprendemos que nunca tem fim; e terceiro, preparar-se psicologicamente (ou sei lá o quê) para o primeiro dia no trabalho. Destas três, a última era a que realmente tirava o sono. Eram muitas estórias, experiências isoladas de pessoas com que conversamos… Um enigma a ser desvendado.

Programamos nossa vinda para cá de modo que chegássemos uma semana antes do dia marcado para o Renato iniciar na empresa. A minha data ainda não estava firme, então eu teria mais alguns dias para me entender com a casa, o microondas, as prateleiras do supermercado e a minha pele, que se enchia de feridas por causa do ar seco. Bendita umidade paulista.

Uma certa manhã daquela primeira semana de maio, eu resolvi sair para uma caminhada. O destino eram as ruas do bairro, para descobrir o que havia por perto. O dia estava lindo (coisa rara por essas bandas), com um céu azul e o sol brilhando. O ar ainda estava frio, o que aumentava a sensação de conforto. E eu, toda faceira, feliz da vida na minha melhor versão de mulher exploradora.

Saí do condomínio, desci a ladeira daqui de casa (o nosso condomínio se chama Hillside. Sim, moramos em um morro!), atravessei a avenida principal de Hannam e caminhei em direção a Itaewon, o bairro vizinho ao nosso. Caminhava e absorvia tudo o que via e ouvia. O que eu via, não sei dizer. Durante muito tempo tudo o que eu via era uma grande poluição visual, aquele monte de pauzinhos todos juntos formando palavras em coreano. O que eu ouvia, eu sei dizer o que era. Ruído, só um monte de ruído. Bastava meia hora naquele ambiente para o cérebro querer dormir. Com o cérebro sobrecarregado, três quartos da minha exploração se transformou em surrealismo, porque eu já não tinha certeza do que via e percebia. Sim, a percepção ficou completamente alterada. Que sensação… surreal…

Mas surreal mesmo era o que estava por vir.

No caminho de volta ao apartamento, resolvi caminhar pela avenida principal de Hannam. É uma avenida sem muito movimento de pedestres, pois não concentra lojas, mercadinhos, farmácias. Era exatamente o que eu queria, caminhar sem ver nada ou ouvir ninguém. Faltando uns dez minutos para chegar em casa, percebo ao longe o primeiro transeunte da avenida, um homem na faixa dos 40 anos. Ou algo assim. Agradeci o fato da calçada ser larga o suficiente e sem caixotes ou vendedores ambulantes para que eu não tivesse que desviar ou pedir licença. Ótimo, eu poderia continuar caminhando sem prestar muita atenção em nada. E assim o fiz.

Eis que, de repente, senti uma dor no braço esquerdo. Bati o braço em um poste? Não, pensei, essa calçada não tem poste. Mas que diabos está acontec… Meu Deus, esse homem acabou de me dar um soco no braço! Olhei prá ele, e ele se desembestou a dizer um monte de blás-blás-blás ininteligíveis, mas a linguagem corporal é universal, e essa eu sei ler muito bem.

Quando eu consegui me recuperar do susto para conseguir reagir, ele já tinha ido embora. Mas ainda olhava prá trás e falava alguma bobagem qualquer. ES-SE-CO-RE-A-NO-ME-BA-TEU! Alguns segundos mais tarde, me dei conta de que ele não batia muito bem os pinos, pela forma com que seus olhos se mexiam.

Sim, concluí que ele era louquinho, um dos muitos desequilibrados que andam pelas ruas de Seul. Mas pensei nas minhas remotas aulas de psicologia, do ID com seus desejos desnudos e o EGO refreando o ID. Quantas coisas que pensamos e queremos dizer, mas nosso ego não deixa. Uma mente desequilibrada quebra a relação do id com o ego, então a pessoa fala e faz o que pensa verdadeiramente, sem freios, sem pudor. Eu, mulher, estrangeira, em um país tradicionalmente machista, culturalmente conservador e bairrista. Seria a reação do louquinho que me deu um soco no braço a vontade reprimida e refreada dos homens coreanos em relação às mulheres estrangeiras?

Essa pergunta já fez aniversário duas vezes, e continua sem resposta. Vamos ver se um dia a resposta vem.

Nesse dia, ganhei a primeira trinca nas minhas “lentes culturais”…

 

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Um pouco antes das 9 da manhã do dia seguinte da chegada na Coréia, estávamos nós e seis malas no saguão do hotel. Esperávamos o Jay Shin, nosso relocation manager, que iria nos levar até a nossa nova casa. Às 9 em ponto chega o Jay, todo pirilampo, já nos arrastando para dentro da van. Então vai ser assim mesmo, sem anestesia?, pensei. Talvez a gente pudesse ficar uns dois dias no hotel deixando a poeira abaixar, arrumando as coisas no apartamento aos poucos, e depois mudar definitivamente. Não, Selma, ainda não aprendeu que com vocês não ter morno?  Ok, sim, já aprendi…

Chegamos à nossa nova casa. Ao entrar, já incorporamos a nova regra: dentro de casa, sapato não entra. Sapato fica no hall de entrada. Meu nariz já dizia que aquele lugar ia demorar um tempão para ter cheiro de lar, de casa da gente. Cheiro estranho, cheiro asséptico, cheiro de o-que-eu-to-fazendo-aqui. Móveis alugados que ficariam conosco pelo tempo que nossa mudança demorasse a chegar – quase dois meses – complementavam a estranheza da nova casa.

De um lado da sala, um sofá de chenile marrom, um sofá de corino preto, um rack de vidro, uma TV e um Home Theather. Do outro lado, uma mesa pequena com quatro cadeiras. A cozinha, já toda equipada com eletrodomésticos de ponta, continha o kit-recém-expatriado: quatro pratos grandes, quatro pequenos; quatro garfos, quatro facas, quatro colheres; quatro xícaras grandes, quatro copos, quatro panelas. Um liquidificador tipo Magic Bullet, o ferro de passar super-turbinado. Ah, alguns utensílios para cozinhar, facas de corte a la ginzu… Não me lembro, deveriam ser quatro, também…

No master bedroom (eles a-do-ram esse termo para designar o quarto do casal), uma cama tamanho padrão e dois criados-mudos. Eu e o Rê em uma cama padrão… Rá, vai ser um estapeio só!

Enquanto a gente tentava se encontrar no primeiro metro quadrado da casa, o Jay e a Grace (a nossa antiga administradora do condomínio) não paravam de falar. Manual de instrução daqui, porteiro eletrônico dali, para abrir o não-sei-o-que aperta aqui, peloamordeDeus não aperta esse botão, não puxa essa cordinha, a caixa de luz, liga o telefone, testa a internet, mostra como liga a TV e o DVD, AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!

Quinze minutos depois, o furacão vai embora. A porta de fecha e a gente diz: e agora? Bem, considerando que a gente só tem uma alternativa, vamos desmanchar as malas.

Já perto da hora do almoço, a gente resolve sair. Precisávamos de dinheiro, de comida, e de algumas coisas básicas na geladeira. A primeira missão: o dinheiro. Após andar um quilômetro e várias tentativas frustradas em quatro ou cinco caixas-eletrônicos, conseguimos achar um 7-Eleven com um ATM que conseguiu ler o nosso cartão. Do primeiro saque na Coréia a gente nunca esquece…

Dinheiro na mão, passamos para a segunda missão: almoçar. Achamos um restaurante ao lado da universidade, com um display na entrada com todos os pratos do cardápio em resina. O maior esforço que fizemos foi levar a menina até o display e apontar o que queríamos. Opa, até aqui tudo bem! O primeiro siricotico estava oficialmente adiado! Comemos, pagamos, saímos, sem provocar nenhum incidente internacional!

Terceira e última missão do dia: comprar víveres. Acho que o termo é bem apropriado para aquele momento, porque tínhamos ZERO na geladeira e armários. Bem, justiça seja feita: fizemos um belo contrabando de mantimentos do Brasil, mas só enlatados e empacotados. Então, caminhamos ao mercadinho mequetrefe de coisitas importadas que fica ao lado de casa.

Se as coisas na Coréia custam os olhos da cara, nesse mercadinho custam os olhos, os rins e o fígado. Não me lembro muito bem de todos os itens da compra, mas acho que voltamos para casa com uma garrafa de leite, um pacote de pão de forma anêmico de tão branco, um pote de manteiga, um vidro de geléia, uma garrafa de água e um fardo de papel higiênico. Sim, um fardo. 24 rolos de papel higiênico. Um quilômetro de papel higiênico.Que raio de comida que esses coreanos comem, peloamordeDeus???

Voltamos para casa, exaustos. Muita informação junta aliada ao jetlag. Lembranças nubladas, talvez porque o dia estivesse nublado. Acho que nunca vou saber ao certo.

Dormimos às cinco da tarde. Até que aguentamos bem. Fica a pergunta aberta enquanto Morfeu abria os seus braços: e amanhã, como será?

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Embarcamos. Seriam 36 horas até a chegada em Seul. Parada em Chicago, com imigração e alfândega: “aquele” pé. Depois conexão para São Francisco, com direito a aterrisagem à beira-mar e decolagem com vista para a Golden Gate – impagável (sim, eu me lembro da Golden Gate, independente da neblina mental do momento. São Francisco é São Francisco). E daí, sim, vôo direto para Seul.

O torpor aumentava com o passar das horas. Ainda bem, porque essa viagem é muito chata. Só me lembro que a imigração em Chicago foi tranquilíssima – pela primeira vez – e a alfândega teve um dos episódios mais hilários que eu já vivi em um aeroporto. 

É muito comum encontrar cães farejadores na alfândega. Labradores, beagles, sabujos. E naquele dia não foi diferente, havia um labrador lindo indo e vindo na fila em que estávamos! Ai eue sentou. Sentou, ferrou, pois significa que ele farejo algou proibido. O labrador sentou ao lado da mala de um senhor de uns 60 anos, chapéu no melhor estilo velho oeste americano. A oficial começou a questionar o homem sobre o que ele tinha na mala. Óbvio que a fila parou, e ficamos todos querendo saber o desfecho do flagra. Blá blá blá, e o labrador ainda sentado, imóvel, babando loucamente. Depois de algum tempo, o senhor do chapelão tirar da mala de mão um saco plástico com um baita naco de carne FRESCA, do tamanho de uma peça inteira de picanha, literalmente sangrando. A oficial passou o maior sabão no homem, e os dois foram para a quarentena. A fila inteira não acreditava que aquele homem realmente queria entrar nos EUA com aquele naco de carne, fresca e sangrando. O labrador continuou louco por causa da carne, todas as células olfativas concentradas no filé. Acho que aquele dia nunca entrou tanta porcaria em Chicago. Cachorro com defeito…

No dia 24 de abril de 2006, por volta das 8 da noite, desembarcávamos na Coréia. O motorista que deveria estar lá nos esperando não estava. Começamos bem. Pegamos o ônibus que nos levaria ao hotel. Chegando lá, recebemos o recado do pessoal de Recursos Humanos dizendo que o motorista havia pedido a conta no dia anterior. Ah, sei, e fica por isso mesmo?, pensei. Ele pede a conta, o RH sabe e não faz nada, dane-se a gente chegando no aeroporto como cachorros caídos da mudança, e tudo bem. Sei…

Da missa a gente ainda não sabia um terço…

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Quando a última caixa saiu pela porta, e vi o apartamento vazio, eu chorei.

– Você quer desistir? Ainda dá tempo.

– Não, não quero.
– O que foi, então? Por que você está chorando?

– Não sei… Mas é como se o chão tivesse sido tirado debaixo dos meus pés.

Desistir? Nunca. Afinal, não seria desistir de algo que se conhece, mas desistir de entrar por uma porta sem saber o que encontrar do outro lado. Dessas coisas não se desiste. Nunca.

Pouco me lembro do que se passou na duas semanas que antecederam nossa mudança para a Coréia. São flashes da loucura do empacotamento dos dois apartamentos, a correria para comprar o que estava faltando, idas ao cabelereiro, casa de um, casa de outro. A cada dia do final countdown, aquela sensação de dormência aumentava. Hoje sei que era o corpo reagindo ao turbilhão de emoções e sensações. Ainda bem. O Homem lá em cima sabe das coisas…

Pizza com gosto de adeus. Não, adeus é muito forte, a gente não gosta. Pizza com gosto de tchau, até mais. É, soa melhor. Mas o gosto ainda era de adeus. Mas gosto bom. Não dava para entender, até hoje a sensação é quase impossível de virar palavras.

O adeus. Difícil descrever. Nem me lembro muito, prá falar a verdade. Ainda bem, recebi o privilégio de ter um cérebro que bloqueia grande parte dos momentos estressantes da minha vida. Bom para o estômago, bom para o perdão, bom para a alma. Assim gasto minha energia com o que realmente importa. Assim sou mais feliz.

Horas antes do embarque, a última visita ao cabelereiro, a última volta no shopping, o último cheque emitido, o último telefonema aos amigos, o último beijo e abraço nos pais. Às 4 da tarde do dia 22 de abril de 2006, entrávamos no taxi que nos levaria ao Aeroporto de Cumbica. Apesar do tom melancólico e saudosista do momento, a corpo e a mente só queriam que tudo começasse logo. Aquilo era a minha droga, a minha adrenalina. O novo, o novo, o novo!

Entrar naquele avião era somente o primeiro passo para atrevessar a tal porta. Era a única forma de descobrir se era a porta certa ou não.

Estávamos a 36 horas do início. De tudo. Do que somos agora e do que seremos amanhã.

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