Semana passada estávamos eu, uma australiana e uma alemã – também grávidas – conversando sobre as experiências passadas e as prováveis futuras de se ter um bebê aqui na Coréia. Entra assunto, sai assunto, e surge o inevitável tema “parto”. E eis que o seguinte diálogo surge:
(alemã): Selma, ouvi dizer que a incidência de cesarianas no Brasil é alta. É verdade?
(eu): (ai, meu Deus, e lá vamos nós..) Sim, é verdade. Isso porq…
(alemã, após me interromper bruscamente): Ah, também ouvi dizer que vocês brasileiras não querem fazer parto normal por causa daqueles biquinis sumários que vocês usam! Rs!
(eu): …
(australiana): …
Ainda perdi alguns momentos tentando explicar os motivos pela alta incidência de cesarianas no nosso país, mas sabia que depois daquele comentário qualquer coisa que eu dissesse não seria absorvida. Então, nem fui muito longe. MASQUERAIOS! Olha, normalmente tenho uma grande presença de espírito e as respostas para esse tipo de pergunta/comentário são imediatas. Mas eu nunca poderia esperar um comentário desses, tamanho o absurdo. Duplamente absurdo: primeiro pela razão colocada, e segundo… eu não consegui entender – NEM DE PERTO – o que ela quis dizer com isso. Não ter parto normal porque a gente usa biquininhos… Hã? Não deveria ser o contrário? O parto normal não vai me deixar nenhuma cicatriz indesejada, caso o médico erre feio na sutura? Ou sei lá mais o quê?
Comentários assim me deixam prostituta da vida. E geralmente são os alemães ou estadunidenses os autores das pérolas, isso porque não existe nunca o intuito de aprender com uma nova cultura, mas sim de utilizar aquilo que eles acham que conhecem para uma piada ou brincadeira de mau gosto. Pessoas de outras nacionalidades sempre nos fazem perguntas inteligentes e pertinentes, ou comentários sobre o que eles já ouviram sobre nosso país, mas gostariam de saber se tal coisa é verdade ou não. Querem saber sobre a violência? Muito justo. Afinal, Cidade de Deus, Tropa de Elite e outros filmes que assustam são os que são vendidos aqui fora. Dá trabalho explicar que o mundo real, dos brasileiros reais, não é necessariamente deste jeito. Mas a gente faz com gosto, porque queremos que as pessoas entendam a nossa realidade. Querem saber se na cidade a gente vê cobra, arara ou macaco? Ok, ok, também damos aula de geografia e meio ambiente. Explicamos que para chegar à Amazônia é necessário voar cerca de 6 horas. Aí a gente ouve: “Vocês, brasileiras, poderiam organizar uma festa! E o dress code não poderia ser mais simples: uma tanga fio-dental com uma pena atrás!”. Lamentável.
Não quero discorrer aqui sobre os motivos que levam as estrangeiras a colocar todas as mulheres brasileiras na Sapucaí em fevereiro. Ou na Praia do Meireles, em Fortaleza. Ou nos bailes funk dos morros do Rio. Mas cansa ter que fazer o trabalho do passarinho no incêndio da floresta. Ir e vir com o bico cheio d’água prá salvar a mata é uma luta inglória, mesmo que válida. Nosso país não se preocupa em vender outra imagem senão a já existente por aqui, afinal é essa imagem que leva divisas ao país, sejam elas lícitas ou ilícitas. Mas me pergunto, e pergunto também a vocês: quando é que isso vai mudar? O que é preciso para que isso mude, já que as fronteiras do mundo estão desaparecendo?
Aliás, alguém consegue entender a estória da cesariana e do biquini? Por favor, mandem uma luz!
PS: a Denise escreveu um post muito legal sobre cesariana (clique aqui para ler), e a Tati sobre o cinema brasileiro (e aqui).