Sem sombra de dúvida, posso dizer que o meu passatempo predileto aqui na Coréia é tentar desvendar essa esfinge que é o povo coreano. Quando as emoções podem ser colocadas à parte (óbvio que isso somente acontece depois de muita meditação e ioga), fica mais fácil buscar os motivos de certos comportamentos, um tanto quanto únicos em relação a outras culturas.
Mas há certos comportamentos que estão literalmente gravados no código genético do povo coreano. Coisas e situações vividas há centenas de anos, que não existem mais, mas que ganharam espaço dentro de genes bem especiais.
A fome
Nos posts Retrato de Um Povo (clique aqui para reler o último dos três posts novamente) eu falei sobre o cardápio coreano. E fiz pequena menção sobre alguns motivos pelos quais os coreanos comem o que comem. Entretanto, as privações de comida do passado não somente ditaram o que se põe no prato hoje, mas também comportamentos e atitudes esperadas quando o quesito é comer.
Quando ainda morava no Brasil, meu horário predileto para ir ao supermercado fazer compras era próximo ao horário do almoço. Quem tinha que fazer compras para o almoço já estava passando pelo caixa, e a grande maioria estava se preparando para sentar-se à mesa. Aqui na Coréia, é exatamente o contrário. O horário do almoço é o mais concorrido, o mais muvucado, o mais estressante. Famílias inteiras vão ao supermercado única e exclusivamente para comer… de graça. Explico: os supermercados na Coréia tem um apelo de marketing de produtos baseado em amostras, mas não são somente lançamentos de novos produtos. A cada esquina de corredor tem um promotor de vendas, ou um funcionário do próprio supermercado, distribuindo amostras de comida pronta congelada, carne fresca grelhada, peixe, produtos da rotisserie, legumes, frutas frescas, vinhos, leites, sucos e iogurtes. Pois os coreanos literalmente avançam nas amostras, TODAS ELAS, independente do que seja. É de graça, é comida? Corre, corre! Pega o que você pode carregar antes que alguém chegue! Eu já deveria estar acostumada com isso, mas toda vez que presencio isso eu me pego pensando no tanto de fome que esse povo passou no passado, e o mecanismo de defesa que a raça criou para evitar a morte. É um alarme que dispara cada vez que o coreano vê comida ao alcance das mãos. Uma coisa meio Pavlov, mais forte do que qualquer nova realidade econômica do povo.
E não importa a classe social. Pobre ou rico, todos agem da mesma forma. Não tem uma vez que não estou em um VIP lounge de empresa aérea que não vejo coreanos descaradamente abrindo as geladeiras e enchendo as bagagens de mão. Latas de cerveja, garrafas d’água, nem Cup Noodles se salvam. Novamente, o alarme que dispara: é de graça, e está ao meu alcance…
Existe ainda algo que eu não presenciei, mas já ouvi relatos de outros estrangeiros que vivenciaram o fato. O oeste da Coréia é banhado pelo Mar Amarelo, o qual tem profundidade muito rasa perto da costa. Isso faz com que o mar “desapareça” durante a baixa das marés, e ilhotas são acessíveis com uma simples caminhada onde antes era mar. Esse fenômeno é bastante interessante e atrai muita gente, sejam coreanos ou estrangeiros. O inusitado é que NINGUÉM faz nenhuma travessia às ilhotas sem uma sacola plástica na mão, porque é preciso pegar todos os crustáceos e pequenos peixes que ficam presos nas pequenas poças da maré baixa. E estrangeiro que não enche a sacola toma bronca, das feias. O alarme, o alarme…
Os estrangeiros
A Coréia, no passado, foi invadida um guizilhão de vezes. A península era a ponte perfeita para Chineses, Japoneses e Mongóis. A Coréia não era necessariamente o alvo todas as vezes, mas um exército chinês a caminho do Japão pilhava todo o território, roubava comida e barbarizavam as pessoas. Muitas vezes eles foram o alvo, e dominados por anos e anos. Tanta dor e sofrimento também criaram mais um alarme genético…
Estrangeiros não são bem vistos por aqui. Independente do motivo pelo qual se vive na Coréia, estrangeiro será sempre invasor. Sempre aquele que veio roubar algo do povo coreano. Sempre aquele em que não se pode confiar. Estrangeiro rouba emprego, rouba mulher. Infelizmente, os estrangeiros são vítimas de muito preconceito, e não é raro ver demonstrações de agressividade. Já contei aqui quando fui agredida na rua. E há poucos meses um americano foi atacado com uma garrafa quebrada: ele saiu da estória com uma sutura do braço, o qual ele usou para se proteger de algo mais sério. O ataque foi prá valer, mesmo.
Quando eu e o Renato estamos na rua, sempre cruzamos com algum bebê ou criança coreana. Por mais micagem que façamos, não arrancamos nem um esboço de sorriso. É muito comum, também, crianças que saem correndo em busca das pernas maternas e paternas gritando miguk saram, miguk saram, que quer dizer americano, em verdadeiro pânico (para eles, todos os estrangeiros são americanos. Clique aqui para ler o que o Renato escreveu a respeito).
Bem, acho que todos os povos tem algo gravado lá no fundo do seu DNA. A estória de nós, brasileiros, ainda é muito curta. Mas já dá prá escrever um tratado sobre tudo o que já temos gravados nos nossos genes. Muita coisa boa, muita coisa triste, muita porcaria também. Entretanto, essas gravações profundas podem ser modificadas, através de novos comportamentos. Eu tenho visto muito coreano agindo de forma bastante diferente da maioria, o que me dá muita alegria. Já vi muito pai e mãe coreanos incentivando seus pimpolhos a nos darem atenção, seja com um oi ou um aceno de mão. São pessoas que começaram a abrir os olhos para o mundo, que já entenderam que a Coréia não é mais uma nação que passa fome, uma nação enfraquecida por ataques, uma nação pisoteada e massacrada. Eles enxergam a Coréia a dois passos de fazer parte do G8, enxergam uma nação que cresce, uma nação que precisa do mundo exterior para poder desenvolver ainda mais. São comportamentos assim que farão com que os alarmes do DNA se modifiquem e evoluam.
Qualquer dia desses vou em busca dos alarmes brasileiros…



Prezada Selma, o sofrimento causado pela fome, pela miséria e pela violência, marcam profundamente a existência do ser humano. Eu tenho gravado no fundo do meu DNA um conflito danado com a minha etnia, pois sou neto de escravos, e volte e meio tenho alguns conflitos, principalmente se tentam me tirar a liberdade de ir e vir. Eu consigo entender o que se passa na alma desses coreanos que foram humilhados ao longo da sua história. Li o texto do Renato, que é bem esclarecedor e complementa o seu, muito bom. Eu acho que só o perdão e o tempo purificam a alma de um ser oprimido e violentado. Muita saúde, paz e harmonia para vocês.
Forte abraço.
CAUROSA – caurosa.wordpress.com
Fala andreense!
Com um DNA espírito de porco como o brasileiro (ao menos o meu), foi impossível não rir ao imaginar a cena de bandos de pessoas correndo e quem sabe até se estapeando para conseguir aquelas minúsculas amostras de comida. Apesar do contexto, é cômico.
Agora, falando sério….e a história de comer cachorro? É comum?
Fico verde só de imaginar…
Bjs!
Oi Carlos,
Eu também tenho algumas gravações no meu DNA que eu tento apagar. Coisas antigas, lá dos meus antepassados na Europa, de uma época em que todos morriam de fome. É engraçado (se é que esse é o termo) que é algo mais forte que a consciência, é visceral. Ainda assim, toda vez que me pego com o gene querendo “aparecer”, eu mudo a atitude e tento gravar algo novo. Não é fácil…
Quanto aos coreanos, bem dito. Perdão e tempo são chaves, nessa ordem. Mas uma coisa que eles não sabem é perdoar… Precisam aprender mais essa lição.
Abraços!
Oi Holly,
Você descreveu exatamente a situação! Eles se estapeiam, sim, e empurram qualquer coisa ou pessoa que estiverem na frente deles. Eu já recebi muito safanão, e até tive a tal amostrinha praticamente arrancada da minha mão! É por isso que eu continuo indo aos supermercados na hora do almoço! Eu me divirto! Ai, foi mal…
Comer cachorro é sério, sim. Mas vale outro post. Esse vale…
Bjs!