Na semana passada perdemos um colega da GM. O Helcio - o Branquinho, como ele era conhecido - faleceu depois de lutar muito contra um câncer de intestino. Tinha 44-45 anos, no máximo. Era o nosso homem de Compras em Dubai, e em um de seus retornos de férias ao Brasil, no final de 2006, descobriu o tumor em um exame de rotina. Nunca mais voltou a Dubai.
O Helcio foi um guerreiro. Teve coragem de encarar o fato de que estava morrendo, e partiu para a luta mais importante: a de fazer as pazes com a vida. Preparou a família, organizou a “papelada”, fez sua última festa de aniversário com tom de despedida. Teve últimos meses sofridos, e foi. Ele pode não ter conseguido falar com todos que desejava antes de ir embora, pode ter-se esquecido de alguma burocracia chata que amolaria os filhos posteriormente, mas tenho certeza de que ele foi embora sem nenhuma pendência - com ele mesmo.
Na empresa, todos abalados. Quando a morte é muito próxima, ficamos inquietos e pensativos, imaginando o que estamos fazendo com a nossa vida e que rumo estamos tomando. A primeira coisa que vem à cabeça é a droga do stress. A forma como nos portamos diante dos problemas da empresa. Tudo o que abdicamos em função da… do… de… a gente nem consegue verbalizar ou materializar aquilo pelo qual colocamos a nossa vida de lado.
Minha humilde opinião? O stress não causa câncer. Stress causa gastrite, queda de cabelo, divórcio; causa unha encravada, ferro de passar roupas dentro da geladeira, pesadelo; causa multa por passar em farol vermelho, ausência na apresentação de judô do filho, cárie; mas não causa câncer. Sou muito mais militante da teoria do oncologista que tratou minha mãe no Hospital do Câncer, no início dos anos 90…
O câncer é a doença das mágoas, dos ressentimentos, dos assuntos mal resolvidos da vida. É como se a mente dissesse: “Chega, não dá mais. Cansei, acabou a brincadeira”, e a partir deste momento o corpo obedece e começa a ir embora. Talvez um mecanismo de auto-defesa super-sofisticado, do qual nosso ignóbil raciocínio não consegue entender… Imagino que segundos após ler essa frase, a sua cabeça já começou a vasculhar os “quem” causadores de mágoa e ressentimento na sua vida. Quantas pessoas você achou? Duas, três, dez? Sinto em dizer que há somente uma pessoa responsável nessa estória toda…
Faz parte da vida: as pessoas vem e vão, e mais dia menos dia alguém vai magoar ou ser magoado. Pisar na bola está no nosso DNA. Lidar com a pisada na bola, esse sim é o xis da questão. Entender que nossa vida é feita de várias estórias, e que muitas delas precisam terminar para que outras comecem. Aceitar que nem tudo tem uma explicação racional: as coisas são da forma que nós escolhemos que fossem. Mas isso a gente não sabe, ou não quer saber. É muito duro olhar-se no espelho e ver que o responsável por cada segundo da vida da gente é a gente mesmo. Fácil fazê-lo quando a coisa é boa! Se a coisa é ruim, sempre haverá um bode expiatório, sempre seremos a vítima que “sofreu” a decisão de alguém. Exemplo clássico é a célebre frase “Eu não pedi prá nascer”, proferida naquele momento crucial de saída à francesa de um problema. Não existe mentira maior do que essa, mentira da gente prá gente mesmo! A gente pediu prá nascer, SIM! Cada um de nós era aquele espermatozóide que nadou desesperadamente prá alcançar o óvulo. Éramos nós, mais ninguém.
Minha mãe me contou coisas em seu leito de morte, feridas abertas em seu coração por anos a fio. Nos meus imaturos 24 anos de idade transferi a dor dela para mim, como se tivesse recebido o legado de manter a ferida aberta. Hoje sei que as pessoas envolvidas são as menores responsáveis por tudo o que aconteceu. A verdadeira responsável por carregar tudo aquilo era única e exclusivamente a minha mãe: ela escolheu o tipo de resposta para o problema, mais ninguém. Ela tinha a escolha de responder diferente ao problema, e não o fez. Sim, verdade nua e crua. Nós escolhemos, nós escrevemos a estória.
Hoje tento fazer as pazes com a minha vida. Perdoar-me pelas coisas que eu deixei de fazer, porque aquelas decisões me colocaram hoje no lugar que eu estou, na vida que eu tenho. É a teoria do caos, o efeito borboleta. Coisas ou pessoas diferentes no passado pintariam um presente completamente diferente. Remexer nas bobagens não é fácil, mas é recompensador. A cada perdão, uma luz se acende, a respiração fica mais leve. E novas janelas se abrem, e novos horizontes aparecem…
Carpe diem.


Penso nisso tudo que voce tão bem escreveu.Tive um cancer,que não deu muito trabalho, foi eliminado e pronto,mas aquele momento em que voce ouve o médico dizendo :”è cancer”, só quem ouve é que sabe… Mas o meu cancer talvez tenha sido de tantos perdões que distribuí ao longo da vida,talvez tenha sido os “caroços” que engolí sem querer faze-lo. Mas hoje vivo atenta á cada acontecimento da vida do mundo,na busca de viver melhor, de ser melhor, de estar bem.
Sinto muito pelo seu amigo. Pessoalmente falando, nao consigo lidar com a morte de pessoas que amo eh uma dor terrivel, pode ser egoismo da minha parte, mas acho uma puta (desculpa o termo) sacanagem pessoas que a gente acha que sao o maximo irem antes de mim. Tomara que consiga chegar nessa sua maturidade leveza Parabens pelo post
Maravilhoso tudo que você escreveu e ainda está concluindo, pois tenho certeza que nossas conclusões nunca tem um fim. A cada dia que passa e a cada comentário ou conversa que temos amo você ainda mais.Realmente acho que fomos geradas por um mesmo ventre, daí tantas afinidades. Você tem razão quando diz que nós mesmos somos responsáveis pelo que acontece em nossas vidas, tanto de bom como de ruim. Como dizem : as águas de um rio nunca passam duas vezes pelo mesmo lugar. Se temos sede aproveitemos o momento senão… Tudo se resolve, bem ou mal, se tomamos alguma iniciativa para fazê-lo. Só perdoar não resolve nada, temos que nos fortalecer a cada perdão, aceito ou não por quem está à nossa frente e julgamos ser o responsável pela mágoa. Beijos !
OI conterrânea libriana! Que bom que voltou ! E logo com um texto matador deste. Lindo e reflexivo…
Resolver estas questões é um dilema. Pessoalmente, escolhi pagar pra resolver: faço terapia. Ajuda, e como….
TEnho um medo terrível desta doença, talvez por toda a culpa que é associada a ela. Culpa pelo cigarro, pela coca-cola, batata-frita..Já pensei por este prisma das mágoas, mas um dia ouvi o Drauzio Varella falando algo que mudou minha visão. Segundo ele, não há nenhum estudo que relacione cancer a comportamento e esta argumentação causa um mal ainda maior, pois o doente se sente culpado pela doença.
É difícil saber qual o fundo de verdade de cada suposição, teoria. Pricipalmente depois que vi minha cachorrinha morrer com um câncer terrível que a fez sofrer muito mais do que qualquer ser vivo deveria…me perguntava por que um animal puro, que teve alimentção adequada, nunca fumou, não teve mágoas, estresses, culpas, nenhum tipo de neuras humanas passava por aquilo.
Resolvi culpar a natureza: cheguei a conclusão que é defeito de fabricação, mal funcionamento das peças mesmo. E contra o qual, não se pode fazer nada!
E continuo tentando não pensar mais sobre isto.
Lindo texto.
Beijos
Selma parabéns você conseguiu sintetizar muitas coisas que assim penso, e tenho certeza que sua mãe esta muito contente com você, gostava muito dela pela força e positivismo transmitido por ela quando conversavamos.
Tchau
Obs. dia 12 de abril faremos na Casa dos Velhinhos de São Pedro, a 1ª Festa Alemã prometo que comerei um joelho de porco defumado pensando em você e no Renato.
João Sergio
Olá Selma! Passei pra agradecer pelo retorno lá no blog e aproveitar pra deixar meus pêsames pela perda. Um abraço!
Vou te dizer o que aconteceu numa sexta-feira de manhã!
Entrei no seu blog pra te xingar pq vcs não viriam mais pra Kyoto. Até que comecei a ler esse lindo post, cheio de verdades, sentimentos e que se encaixam tão bem com meus pensamentos… Resultado! Não deu tempo de te escrever e quase cheguei atrasado no serviço.
Parabéééééééés Sééééé! Lindo post e bola pra frente!
A morte do meu pai foi longa e dolorosa.
Foram três natais passados numa janela de UTI.
Câncer de Pancreas é devastador.
Mas a boa notícia (ou sei lá a má) que o médico nos passou é que o metabolismo de pessoas idosas funcionam mais lentamente que uma pessoa jovem.
Um processo de duraria meses, levou três anos.
Longos, prazeirosos de ter Deus me dado a possibilidade de ter tido convívio com uma pessoa tão espetacular e praticamente perfeita.
Basta dizer que o primeiro e único tapa que ele me deu foi quando eu repeti o primeiro colegial.
Dói até hoje.
E me faz bem até hoje.
E ele lutou pela vida até o último momento de lucidez.
Eu estava no quarto fazendo uma visita e ele me chamou, já esquálido e pediu: “Me ajude a fazer fisioterapia, por que a fisioterapeuta já desistiu de mim, mas eu tenho esperança de ainda sair andando daqui”.
Foram aniversários com aquele sentimento contido “este vai ser o último”.
O abençoado provedor da Santa Casa de Santos era amigo de família e deu todo o suporte para que ele continuasse a sua luta pela vida.
Fiz os passeios que pude, o levei para ver o pôr do sol várias vezes.
E Deus sempre queria que ele retornasse para o hospital para ser esquartejado mais um pouco e permanecer lutando.
Na última ida para UTI, a aquela figura esquálida tinha se transformado numa bola disforme, parecendo um lutador de sumô, pois os rins tinham falido e mesmo assim o nosso amigo provedor manteve o amigo vivo para ele tomar a última e mais difícil decisão da sua vida: parar de lutar para viver.
Isto só aconteceu quando a minha mãe, dentro da UTI, segurando a sua mão, pediu: Francisco, pode ir para o céu.
Morreu na manhã seguinte.
Tive que colocar uma foto dele no velório para que as pessoas pudessem lembrar de quem ali estava e acreditar que era mesmo o corpo daquele homem maravilhoso que estava ali.
No momento do enterro, desabou um tremendo temporal, mesmo com dia claro.
Minha mãe concluiu: é São Pedro lavando o céu para receber o Francisco que ele gosta de que tudo esteja sempre certo.
P.S consegui finalmente colocar o link de vocês no meu blog
Saudades
Este post foi muito intenso. Uma daquelas sensações esquisitas, de tirar um peso do peito às custas de toda a energia do corpo. Faz parte da limpeza da alma, eu acho.
Quando comecei a receber os primeiros comentários, percebi que a intensidade não foi imensa somente para mim. Foram estórias partilhadas, lembranças do passado, palavras de solidariedade. Verdadeiras demonstrações de confiança. Isso não tem preço.
Picida, Daniel, Marta, Holly, João, Roberto, Ed e JENF: o meu muito obrigado pelos comentários. Obrigada pela confiança, por dividir, por sentir saudades junto comigo.
Bjs no coração!
Oi, Selma, fazia tempo que eu não aparecia por aqui. Gostei de ver que vc retomou o blog (às vezes a gente tira férias, né?). Esse seu texto tb me pegou. A gente vai elaborando as perdas aos poucos… E ler sobre isso ajuda. Um beijo
Oi Patroa!
Não sabia que ele havia falecido, e agora terei meu tempo de ficar perplexa!
Vasculhei as caixinhas internas, e rezo todos os dias para que a mágoa de torne uma lembraça e que o desejo de viver fique mais firme que tudo!!
E rezo pelas pessoas que conheço, e que conseguem falar de fatos ocorridos a 20, 30 anos, como se tivessem acontecido ontem…QUE DEUS AS PROTEJAM!!!
Selma,
Olá ! Estávamos realmente sentindo falta de seus posts e, este é realmente muito especial.
Também acredito que somos responsáveis por muitas das coisas que acontecem em nossas vidas. Sem dúvida nenhuma, colaboramos para o aumento do stress, por isso acho que podemos acordar todos os dias dispostos a fazer a diferença. Desejando um “Bom Dia” para si mesmo e para os outros, dispostos a aprender com a vida e nos tornar pessoas melhores. Mas não podemos nos esquecer que somos humanos e, muitas vezes, não conseguimos lidar com algumas vírgulas do dia-a-dia. Vamos engolimos ao invés de pôr para fora, administramos ao invés de tentar solucionar e acabamos por guardar conosco situações não resolvidas que se tornam ressentimentos. Seria muito bom se conseguíssemos levar a cabo todos os assuntos mal resolvidos… mas a vida não é tão fácil!
Infelizmente, tive pessoas muito próximas que sentiram na pele o que esta doença provoca. Acho sinceramente que existem outros motivos para que este mal se instale, como por exemplo: qualidade de vida, genética, o que comemos, … porém uma vez descoberto, é preciso ter muita força e coragem para conseguir combatê-lo. É necessário estar forte e saudável, sem que nenhuma mágoa ou ressentimento possa envenenar o corpo e a alma, enfraquecendo o espírito.
O problema é que nem sempre é assim, normalmente, só é descoberto quando o corpo já está sinalizando que não agüenta mais e, torna-se muito difícil encontrar energia para lutar…
Meu sogro costumava dizer que é um privilégio “para poucos” saber que seu tempo esta acabando; poder organizar sua vida, ou o que resta dela; liquidar as pendências e se despedir das pessoas que fizeram parte da sua vida, e tornaram sua caminhada especial!
Prefiro acreditar que esta foi a maneira que ele encontrou para enfrentar o que estava acontecendo e nos ensinar a aceitar e administrar a perda !
Ana