Ser expatriado tem suas vantagens. E desvantagens. A proporção destas duas depende diretamente das respostas que cada um dá para a vida. Para mim, em outras palavras, depende única e exclusivamente de quanto a pessoa está disposta a ser feliz de verdade, encarando cada momento com uma oportunidade de crescimento e aprendizado. Entrar de cabeça em tudo? Sim.
Mas tudo não é tão simples assim. Entrar de cabeça em tudo significa conquistar territórios pessoais, fincar raízes, cativar pessoas, fazer novos amigos, criar rotinas. Tudo muito efêmero, sabendo que em qualquer momento podemos voltar às nossas antigas raízes ou partir para uma nova aventura em outro lugar. Dar-se conta disto é como chegar a uma encruzilhada no caminho, e decidir para que lado ir.
A decisão de qual caminho seguir é pessoal, e de novo, depende das respostas que damos à vida. Há aqueles que optam pela redoma, por proteger-se de qualquer coisa que os faça sofrer: um novo amigo querido que nunca mais será visto, uma rotina que nunca mais poderá ser reproduzida, um lar que precisará ser abandonado por ser temporário. E há aqueles que optam por viver tudo intensamente, mesmo sabendo que o sofrimento virá ao dizer adeus à coisas, lugares e pessoas e que provavelmente será um adeus para sempre.
Não há resposta certa ou errada. Há somente a resposta.
Ser ou não ser – eis a questão
Será mais nobre sofrer na alma pedradas e flechadas do destino feroz, ou pegar-me em armas contra o mar de angústias – e, combatendo-o, dar-lhe fim?
Morrer; dormir; Só isso. E com sono – dizem – extinguir dores do coração e as mil mazelas naturais a que a carne é sujeita; eis uma consumação ardentemente desejável.
Morrer – dormir – dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo! Os sonhos que hão de vir no sono da morte quando tivermos escapado ao tumulto vital nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo, a afronta do opressor, o desdém do orgulhoso, as pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, a prepotência do mando e o achincalhe que o mérito paciente recebe dos inúteis, podendo ele próprio encontrar seu repouso com um simples punhal?
Quem agüentaria fardos gemendo e suando numa vida servil, senão porque o terror de alguma coisa após a morte – o país não descoberto, de cujos confins não voltou jamais nenhum viajante – nos confunde a vontade, nos faz preferir e suportar os males que já temos, a fugirmos para outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão se transforma no doentio pálido do
pensamento. E empreitadas de vigor e coragem, refletidas demais, saem de seu caminho, perdem o nome de ação.
William Shakespeare (1564-1613) Hamlet, Ato III, cena 1
Carpe diem, Selma
PS: meu muito obrigado à amiga Valéria Bertagni, também expatriada na Coréia do Sul e co-autora deste post.



Tenho impressão que ser um expatriado é como Hamlet disse: dormir um sono profundo onde o mundo que se vive não é parte de nossa realidade. Acordar e ver que está ainda naquele lugar estranho com a sensação que no próximo dormir acordará no seu lugar de origem, cercado daqueles entes queridos, daqueles lugares maravilhosos que tanto adoramos. O pensamento caminha longe e nos traz boas recordações e, até mesmo sabores que sentimos sem comermos aquela comida que tanto gostamos. Ser sempre. Não é uma questão mas uma opção necessária para vivermos bem, onde estivermos e com quem estivermos. Beijos.
Selma, seu texto mexeu comigo. Talvez eu também me torne uma expatriada em breve.
Bom te-la de volta!
Beijos.
Selma, lembra quando voce escreveu sobre suas duvidas sobre exercitar seu dom da escrita??? Um texto assim é a resposta…
O pior e’ que quando a gente vai dormir, fica aquela sensacao que o outro lado do mundo esta’ fazendo algo. Ai pensamos: o que estamos perdendo? Sera’ que, se acontecer algo la’ no Ocidente, vai dar tempo de eu correr atras no Oriente? Em termos de trabalho, isso me tira/tirou o sono muitas vezes…
Marta, tudo isso é verdade mas não podemos pensar que só um sonho: é a verdade nua e crua, e “dormir” pode significar deixar passar as oportunidades de crescimento. Difícil… Bjs!
Lucy! Você irá se juntar ao clã dos expatriados? Depois conta tudo! Bjs!
Oi Picida, mais uma vez você me fez parar para pensar! Obrigada! Bjs!
Djambers, mas quando eles estão dormindo a gente tá acordado!
Falando sério: a gente bem sabe que, infelizmente, as coisas no Brasil são bem mornas em relação ao resto do mundo… Bsssssss!
É Selma, acho que esse é o eterno dilema! Na verdade, é um dilema que temos meio resolvido quando nos propomos esse estilo de vida (se é possível chamá-lo de um “estilo de vida”). Ser expatriado é a ponta do iceberg, para você fazer esse tipo de aposta e sair do seu país, é porque na prática acaba quase sempre apostando na mudança. No fim das contas são as tais oportunidades de crescimento.
Mas nunca é tão simples…
Minhas raízes são aquáticas! Vão junto comigo
Estava com saudade de ler seus textos!
Besitos, Bianca
São sempre complicados, os cruzamentos, não é? Nas expatriações e nas outras decisões de todos os dias. Escolher um caminho significa sempre deixar outro para trás, e nunca se sabe o que estaria ali a seguir à curva ou um pouco mais à frente…
Muito obrigado, Selma, pelos comentários tão simpáticos lá no meu blogue.
Um beijinho.
Sééééélmsssss… resposta a msgm no meu blog: Pois é mulé, voltem logo pra essas bandas! Falando sério venham na época das cerejeiras, principalmente em Kyoto! IMPERDIVEL!
Agora quanto ao seu post! Krak! Você, Masch e Heldim são meus ídolos de blogadores; lindos textos, detalhes, fotos… ai ai.. quando crescer quero ser como vocês, rs! Bjo enorme.
Certa vez alguém disse que “Coragem é a arte de sentir medo, sem que ninguém perceba!”. Todos nós temos receio do que é novo ou desconhecido, em maior ou menor escala. Entretanto algumas pessoas desenvolvem a capacidade de lidar com estas situações de maneira simples e direta : como vocês. Este diferencial é que faz com que haja possibilidade de crescimento pessoal e profissional.
Na verdade, quando escolhemos um caminho ou outro, somente estamos mudando a direção para podermos continuar. Temos livre arbítrio e a escolha é nossa, mas não deixamos nada para trás. Podemos levar tudo conosco : em nosso coração, em nossa mente, em nossas lembranças … Isto é VIDA !
Comparando com uma viagem, podemos simplesmente estar no trem (como passageiros), sermos os vagões, ou a própria locomotiva! A escolha é nossa …
Não sei quem foi que disse , mas … “O mundo pode ser do tamanho da nossa imaginação. Acredite no seu sonho é vá muito além do arco-iris, porque só quem ousa buscar o infinito consegue alcançar as estrelas”.
Bianca, adorei ouvir sobre as suas raízes aquáticas! As minhas, ultimamente, estão anfíbias: um pé lá, outro cá! Bjs!
Angela, a dúvida do que ficou para trás é constante, mas precisamos acreditar em duas coisas: que tomamos o caminho certo, e que sempre há uma chance de consertar algumas decisões que não deram certo. Bjs!
Ed, quero te ver em Kyoto de novo! E a sakura, só prá complementar!
Ah, você é campeão em postar fotos maravilhosas! Ninguém te bate! Bjs!
Ana, seu comentário me emocionou muito, e me fez pensar na vida e cristalizar algumas atitudes. Obrigada por fazer parte do meu caminho! Bjs!
E-mail da Ana, ainda sobre o post do Hamlet! Obrigada pelo carinho, Ana! Bjs!
Selma,
Hoje estava atualizando minha agenda, e encontrei um marcador com uma mensagem de D. Helder Câmara que tem tudo a ver com seu post “Hamlet”. Já deixei um comentário por lá mas, como não consegui acessar daqui do escritório, estou te enviando por e-mail para não esquecer …
“Nenhum de nós pode programar a vida como linha reta, imutável, inflexível …
A cada instante, as surpresas rebentam e temos que ter a humildade e imaginação criadora para ir salvando o ESSENCIAL através do inesperado de cada instante …”
D. Helder Câmara (Recife, 06/02/1976)
Até,
Ana
E tudonão passa de um ponto de vista…
…é assim que todos somos!
Parabéns pelo texto
Amei
Andreia
@_audray_